Você ainda lembra como era produzir um texto antes da Inteligência Artificial fazer parte da sua rotina? No contexto dos profissionais de comunicação no Brasil, era abrir várias abas no Google e:
- fazer leituras que nem sempre entregavam respostas prontas
comparar fontes diferentes - organizar as ideias no papel, pelo menos comigo era e continua sendo assim;
- decisões que precisavam ser tomadas sem validação imediata, dava tempo de deixar o texto descansar.
Na prática, era um caminho que criava pensamento estruturado quase à força, era feito “na unha”.
Esse processo era mais lento, porém, era nele que o pensamento ganhava forma, você construía repertório, fazia escolhas e desenvolvia senso crítico.
Hoje, a dinâmica é outra. Você pergunta e recebe uma resposta pronta, organizada, e, em muitos casos, já com aparência de algo publicável. A eficiência é inegável.
A questão que começa a surgir, especialmente para quem trabalha com conteúdo, livros e comunicação, é mais profunda: quando o processo é encurtado, o que acontece com a construção do pensamento?
O efeito colateral: da produtividade à diluição do repertório
A pergunta acima nasce das minhas inquietações: a IA ajuda e muito na produtividade. Só que o ponto de tensão aparece em outro lugar, mais sutil e mais decisivo. Eu me empenho muito pra não jogar tudo na IA, no entanto, confesso que algumas vezes é difícil, mas eu resisto!
Produzimos mais, porém pensamos menos sobre o que estamos produzindo.
No cenário atual, com respostas prontas, parte desse esforço desaparece. O ganho de velocidade é real, só que aparece um efeito colateral: mais produção, menos variedade, menos elaboração, menos senso crítico.
Ao mesmo tempo, eu percebi algo que muita gente sente, e nem sempre consegue nomear: parece que as imagens hoje são mil por cento artificiais e só possuem uma estética. Essa percepção, além de visual aparece também nos textos, nas estruturas e na forma como as ideias são apresentadas. O nome disso é: Homogeneização da linguagem, e Artificialização da expressão.
Digo com certa nostalgia que perdi a referência de grandes designers. Eu folheava as revistas com matérias do David Carson para me conectar com suas ideias. Onde eles estão hoje?
Existe um excesso de material disponível e, ao mesmo tempo, uma dificuldade maior de identificar referências com identidade clara. A abundância por muitas vezes dilui o repertório.
Não sei se você vai concordar comigo que Inteligência Artificial é um caminho sem volta. O que está em voga é aceitar a utilização das IAs generativas, sobretudo utilizando-as sem abrir mão daquilo que sustenta a criação.
A IA pegou uma promoção na loja de Antologias e Travessões
Como eu tenho preguiça de publicações do tipo “não é isso é aquilo, você não está assim, está assado”. Fora a enxurrada de travessões ao longo dos textos. E isso é só um exemplo.
O problema aqui está na repetição e padronização automática, no uso sem intenção e sem noção! E quando nós, leitores assíduos e críticos, reconhecemos esses padrões, perdemos o interesse, porque são escritas que sugerem a ausência do pensamento.
Mesmo quando as informações estão corretas, eu considero esses textos preguiçosos por parte de quem os publicou. E confesso: isso me irrita profundamente! Mas, eu relevo.
Tenho dificuldade em ler alguns materiais da faculdade, porque eles contêm os vícios que citei aqui, só que nestes casos o que me mantém na leitura é saber que houve curadoria. Há aqui um alerta: a produção sem filtro em ambientes que deveriam prezar pelo rigor amplia a sensação de superficialidade e reforça a importância de processos editoriais bem conduzidos.
Tudo isso é uma provocação que me faço quase que o tempo inteiro: o que mais gosto no meu trabalho é mostrar algo que eu criei. Essa frase é central. Ela aponta para autoria, para responsabilidade sobre o que é produzido e para o valor do processo.
Yes! Nós temos mais livros!
Nunca houve tantas opções e sites para estruturar, diagramar e colocar um livro no mundo. Nunca foi tão fácil publicar um livro como autor independente, e os números estão aí para comprovar.
Entre 2023 e 2025 houve um aumento relevante no mercado editorial: 13% de aumento na quantidade de empresas (editoras/livrarias); 7,75% de aumento no volume de livros vendidos (varejo 2025); e 39% de crescimento no faturamento de livros digitais.
Embora a relação direta entre “causa e efeito” com a Inteligência Artificial seja multifacetada: ela atua mais como um acelerador de produtividade e redução de barreiras do que como o único motivo do crescimento.
Mas antes de fazer seu livro de forma independente você precisa saber que publicar uma obra envolve no mínimo 7 pontos fundamentais:
- edição (estrutura, coerência e desenvolvimento do conteúdo);
- revisão (qualidade textual e precisão da linguagem);
- organização das ideias e construção narrativa;
- projeto gráfico e diagramação;
- registros e aspectos legais;
- impressão e decisões técnicas com a gráfica;
- posicionamento e estratégia de circulação.
Além de organizar ideias, sustentar uma linha de pensamento, estruturar uma narrativa e decidir o que entra e o que fica de fora, para só então mostrá-lo para o mundo. Nem o Gemini nem o Claude vão entregar tudo isso para você.
É possível fazer uma publicação independente, porém exige consciência sobre o que será necessário sustentar: tempo, energia, aprendizado de processos técnicos, além de decisões estratégicas que impactam todo o ecossistema de uma obra. Quando esse entendimento não existe, o livro até é publicado, contudo nem sempre alcança o nível de qualidade e posicionamento que poderia.
“É tarde, é tarde, é tarde! Já vou com um bocado de atraso! Não dou oi, nem adeus, tenho pressa, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!” (Nivens McTwisp, o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas)
Alguns produtores de conteúdo tornaram-se como o Coelho Branco de Alice: correndo freneticamente e repetindo ‘é tarde, estou atrasado!’, focados apenas na velocidade da entrega, mas sem saber para onde o excesso de volume os está levando.
Ao mesmo tempo, o mercado começa a reagir ao excesso de produção superficial. Notei que algumas vagas já pedem “escrita humana”. Nada é por acaso. Depois de uma fase de entusiasmo com a automação, empresas perceberam que volume sem identidade não sustenta resultado de longo prazo. Conteúdos genéricos não engajam, não constroem autoridade e não diferenciam marca.
Diferentemente do personagem que não pode parar porque está atrasado, o novo diferencial do mercado editorial em 2026 é justamente a capacidade de analisar e revisar mesmo na velocidade da luz. Saber o que, como, para quem e por que dizer precisa continuar sendo o verdadeiro diferencial. Enquanto a IA foca no ‘correr’, o profissional humano foca no ‘direcionar’.”
Em 2026, essa mudança significa um ajuste de rota. A tecnologia permanece, a velocidade continua alta, e cresce a valorização de algo que nunca deixou de importar: curadoria do conteúdo.
A responsabilidade pelo que você escolhe sustentar continua sendo sua
A IA não pode se sobressair à capacidade humana de ter senso crítico, criar e produzir. Sou 100% a favor da tecnologia, e sou 1000% a favor da responsabilidade e honestidade intelectual. A ferramenta pode acelerar, organizar e sugerir, mas não sustenta o que precisa ser construído por você.
Diante de tudo isso, talvez a pergunta mais relevante seja: O que precisa continuar sendo humano dentro desse processo?
Pensar, escolher, sustentar ideias e assumir autoria continuam sendo responsabilidades que não podem ser terceirizadas para chatGPT.
Toda história que carrega valor merece ser publicada, se não for organizada, ela se perderá. Essa frase poderia encerrar o texto, mas ela também abre uma reflexão importante. Se você pretende escrever um livro, produzir conteúdo ou construir autoridade por meio da escrita, vale olhar com atenção para o caminho que está escolhendo.
A Inteligência Artificial pode e deve ser uma aliada poderosa no seu processo, desde que você não delegue a ela aquilo que define a qualidade do que você produz, desde que ela não apague a sua originalidade e personalidade.
No final, a diferença entre um conteúdo que passa e um conteúdo que permanece está no nível de consciência aplicado na sua construção. E essa continua sendo uma escolha humana.
E sim, eu usei o GPT e Gemini para pesquisas e revisão do meu texto, no mais é tudo fruto das vozes da minha cabeça. Desta vez minha revisora vai ficar chateada comigo. Sorry, Wanessa!
Diante de tudo isso, valem as perguntas: você está usando a IA para apoiar o seu pensamento ou para substituí-lo? E, mais importante, qual tem sido o impacto real disso na sua rotina?
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